
por Carlos Lemos
Há algo de errado com o Biquini Cavadão. Os rapazes (Bruno, Miguel, Alvaro, Sheik e Coelho) são superprofissionais, ensaiam diariamente, trabalham muito, quase sem folgas, já gravaram cinco discos, em 1993 fizeram 153 shows em todo o país, de norte a sul, de leste a oeste, nas grandes capitais e cidades, nas brenhas do interior. São noites mal dormidas, cada noite num hotel.
0 senso profissional lhes dá uma vida sacrificada, com longas ausências de famílias, amigos, amores queridos, ansiosos, ciumentos. Saudade.
Ainda assim, continuam a ser tratados pelos veículos de comunicação como jovens amadores, filhinhos de papai rico, que tocam para se divertir.
Há dez anos na estrada, com a mesma formação, trabalhando sem cessar. E nesses dez anos ainda e sempre aparecem, nas inúmeras listas de fim de ano como a revelação do ano. É verdade que já foram eleitos o melhor conjunto. Mas o normal é aparecerem numa ofensiva lista de Revelação. Não importam sucessos como "Tédio", "Timidez", "No Mundo da Lua", "Bem Vindo ao Mundo Adulto", "Zé Ninguém", "Impossível", "Domingo" e o super sucesso "Vento Ventania", a melhor e mais tocada música do ano.
Talvez porque não tenham alma de vedete, porque não se promovam, porque não usam e, por isso, não aparecem em escândalos de álcool ou drogas.
São sérios e profissionais os rapazes do Bíquini Cavadão. A seriedade começa por seu democrático exasperante, exaustivo e perfeccionista método de criação. Nada no Biquíni Cavadão é autoria de alguém, criação de um único. Tudo é coletivo, resultado de reuniões e mais reuniões dia a fora e noite adentro, sempre à procura do melhor, do mais criativo, do mais perfeito. Vitórias e derrotas são sempre de todos. Letra, música, arranjos e mixagem.
Discussão sem parar. Brigas? Quase nunca. 0 objetivo é encontrar o melhor. Se possível a perfeição. Este método de trabalho dá responsabilidade, dá densidade, melhora o produto, aperfeiçoa a obra. Gera uma qualidade exemplar, músicas de sucesso na boca do povo, mais shows, viagens, mais noites mal dormidas. Saudades.
0 cansativo mas eficiente método de criação, o isolamento, as viagens, os anos de estrada geraram a maturidade. Quase se poderia dizer, maturidade do isolamento. Dolorosa, eficiente e pouco reconhecida maturidade e profissionalização.
Tudo isso aparece, se reflete, fica mais claro agora. Em Agora, o novo disco do Biquini Cavadão. A partir deste instante, a partir de Agora, ninguém pode desconhecer a qualidade do som do Biquíni. Os jovens amadores de há dez anos são profissionais aplicados, competentes, de extraordinária qualidade. Ficaram para trás os quase imberbes estudantes de física, medicina, engenharia. Restaram - e graças que restaram - os adultos músicos profissionais que geram um "som" (como se diz hoje em dia) de primeira.
Maestria nas performances individuais, deslumbramento no conjunto. E só escutar para concluir. Como evoluíram a vibrante guitarra do Coelho, o contido baixo do Sheik, a perfeita bateria do Álvaro, o erudito teclado do Miguel e a voz do Bruno, que passou de um inseguro vocalista iniciante a um seguro cantor que brilha mais do que nunca em Agora. E como deixar de reconhecer a fina poesia deste novo disco que se coroa na frase antológica que aparece em "Ilusão": " ... Não adianta distrair no tempo, como o vento a sua face pousa no meu pensamento" . Reconhecer, sim, a mudança da temática das letras, que deixou para trás a perplexidade da adolescência e mergulhou na saudade adulta do amor perdido ou distante na melhor tradição da poesia da música brasileira. Os adultos rapazes ( ainda rapazes) começaram sua carreira cantando, sobretudo, o espanto dos jovens adolescentes diante do mundo. Através do tempo cantaram, em suas letras os problemas sociais brasileiros, as injustiças de uma distribuição de renda criminosa, denunciaram os políticos que nos decepcionam, homenagearam os mais fracos e humildes.
Alguns desses temas aparecem em Agora e vão aparecer no futuro pois os problemas não cessam. Mas é o amor, a dor no amor perdido, do amor distante, distância que a estrada impõe, que o profissional ismo exige, o tema dominante de Agora.
Em Agora, nada do dançante fácil, do refrãozinho alegre, da frase sem profundidade. Neste disco, o ritmo de "Porque Você Não Estava Aqui-e alegre e saltitante, mas a letra é uma profunda dor de amor.
Agora é agora. 0 retrato do momento do Biquini Cavadão, em seu infindável processo criativo. Democrático e sofrido processo criativo.
Em Agora estão citados Drumond, com sua rima sem solução, em "A Rima" e Zuzuca, com seu ganzê e seu ganzá, em "Apoteose".
Estão no disco a denúncia irritada de "0 Idiota Eletrônico", mas está também a renúncia coletiva do conjunto em favor do bonito e suave brilho de Álvaro e Bruno em " A Próxima Vez".
É um disco onde o Biquíni Cavadão mostra todo o seu talento e sua potencialidade, pelo até Agora.
Dos 18 aos 28 anos os rapazes cresceram, melhoraram. Brilharam e continuam com aquele ar (falso?) de que não ligam para o sucesso.
Carios Lemos
Junho 94